A Viagem – Pedro Salgueiro

A Viagem – Pedro Salgueiro:

Dom Eugênio descia do trem, pequena mala de viagem à mão, e caminhava devagarinho pela rua empoeirada. Deveria faltar muito para a meia-noite, pois ainda havia movimentação nas calçadas. Adiante pensou ter avistado um casal sentado em cadeiras de balanço; em seguida, apurava bem a vista e não mais o encontrava.

Somente uma coisa ele não entendia: por que, sendo já noite, havia toda aquela claridade? Tentou ver a lua, e a fachada de um casarão não permitia. Andou mais alguns passos, e nesse momento não mais carregava a mala; aperreou-se tentando lembrar. Tinha a impressão de muita gente nas ruas, porém não as via. Agora escutava uma música longe, muito longe, e que vez por outra o vento trazia mais forte. Recordou-se da bandinha, talvez estivessem em plena festa de padroeiro. Mas como, se ainda era novembro? Apurou melhor o ouvido, a música parecia se aproximar por uma das ruas laterais. Foi no rumo de lá, passadas largas… em vão, divisou a esquina e não avistou nada. Bem distante um galo cantava, despertando os outros, que respondiam tristes. Não havia ninguém nas ruas, no entanto continuava sentindo as respirações pesadas. Não compreendia, também, aquela claridade toda em plena noite e tentava inutilmente enxergar a lua, porém a copa de um benjamim não deixava.

Continuou seguindo a rua deserta. O mercado com todas as portas fechadas lhe dizia ser muito tarde. A alegria tomou conta de seu rosto, passava em frente à casa de Francelino e o via sentado na velha cadeira ao pé da porta; duvidou da vista, pois não enxergou D. Lurdes ao lado, como sempre ficavam desde que os conheceu, quando ainda era uma criança. Afastou-se rápido, não poderia ser Francelino, veio-lhe à lembrança que sua mãe escrevera uma carta — um pouco antes do falecimento dela — dizendo da morte do casal. Poderia ser seu filho morando na mesma casa; mesmo assim recuou, não saberia o que dizer. Ao chegar à esquina olhou de relance, e ele não mais estava.

Sentado na calçada, tentou recordar-se de tudo. Nada vinha ordenadamente, eram uns pedaços de lembrança misturados com outros, e o pior: de épocas diferentes. Ao mesmo tempo em que lhe vinha o dia de sua partida, o choro da mãe (que nunca haveria de ver novamente), o rosto triste dos irmãos, o silêncio do pai… vinham lembranças recentes, da cama dura do hospital, da visita dos velhos amigos, chorosos a se despedirem sempre… das injeções para afastar a dor que o consumia, da procura de alguém que o socorresse na fria madrugada, e da voz que não saía. A muito custo recordou-se da noite em que finalmente não sentiu dores, e também não aparecia mais médico nem os vizinhos nas camas do lado. Não sentia frio nenhum, apesar de lhe terem tirado toda a roupa… a primeira vez em muitos anos que não sentia dor e frio. A partir daí não lembrava mais nada; a memória de repente pulava até o desembarque do trem… aquela estranha luz que o acompanhava, a ponto de ofuscar-lhe a vista quando olhava para longe. Tentava escutar a música, mas o vento não soprava… e tudo permanecia parado. Nem os galos mais cantavam. Completou a volta pela cidade, o capim tomando conta de tudo. Procurava a mercearia do avô, e não a encontrava; tudo parecia tão diferente… abandonado.

Nunca imaginou que voltaria à cidade natal; já quase se conformava com sua impossibilidade, devido à doença e à distância. Há tempos não andava… os médicos não diziam nada, calados como se não escutassem seus pedidos, suas súplicas para ir ver a família, ao menos os que restavam, os que ainda não haviam morrido. Não escutavam sua voz baixa, ou fingiam não escutar, afastando-se depois de aplicarem a injeção. Agora ele estava ali, não sentindo dor nem frio, as pernas firmes davam passadas largas, a viagem não esperada… devia ter melhorado, recebido alta e planejado tudo… feito a mala; e onde, meu Deus, teria deixado a mala? A memória o traía, dava saltos… só recordava ter avistado a torre da igreja pela janela do trem, as primeiras casas, os coqueiros da beira do rio; de repente já a estação e a rua deserta, a mala na mão… Onde a teria deixado? Lembrou-se novamente da estação, deveria mesmo ter ficado por lá, em cima de qualquer banco da plataforma… Mas como, se ainda há pouco ela estava em suas mãos? Foi retornando, precisava encontrar a mala, talvez dentro dela houvesse algo que lhe despertasse a memória… E a mercearia do avô, que era bem ali, jurava, não poderia ter esquecido…

Aproximou-se da estação, o capim cobrindo tudo, uma escuridão danada, o prédio abandonado, portas quebradas… nem mais os trilhos estavam no lugar, apenas alguns dormentes espalhados no meio do mato… e a certeza agora de que escuta um badalar de sinos, longe, bem longe.

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