Dizem que as sombras querem nos dizer coisas…

Dizem que as sombras querem nos dizer coisas:

Daniele Bezerra da Ponte

     Era meio dia, os relógios novos e cansados cronometravam aquele tempo. Para uns talvez um encanto; para outros um tormento. Este mesmo tempo passava com delicadeza na rua dos Comerciários, na cidade de Nocença. Neste ambiente, ao passar dos ponteiros, uma cadeira de madeira, que já se ouvia o ruído de suas dobradiças fatigadas, acolhia um ser mais fatigado ainda, noventa décadas nas costas e o abandono como herança nas últimas linhas de sua história. 

     Por esta mesma rua, passava um moleque, nove ou dez anos talvez, pálido, como era pálido! Quando segurava o cabo da vassourinha tinha-se dificuldade em separar seu frágil corpinho daquele objeto de trabalho. O senhor das noventa décadas e sua cadeira lendária balançavam-se a olhar para a rua à frente da sua; num ritmo perfeito que ia para frente e para trás, várias vezes! Cada balanço singular levava os fios brancos do idoso a encostar em um quadro na parede da sala, velho quadro! Nele continha meia dúzia de indivíduos, mas o tempo não os deixou intactos, pois o cupim destruiu os semblantes que ali um dia enfeitavam. Assim, restaram-se apenas sombras do que um dia foi luz. 

     Entretanto, um outro quadro habitava nesta sala, mas apenas o quadro estava em companhia do velho. A rua observada pelo idoso era um tanto intrigante aos olhos leigos da mocidade. Lá construções grandiosas glorificavam o século XXI, mas um resquício do XIX ainda estava ali representado por uma velha casa. Suas portas estavam fechadas há anos; um lodo vibrante já dominava a fachada e os portões velhos e enferrujados brilhavam, como uma estrela em socorro. O menino que meio dia andava pela rua dos Comerciários tropeça e derrama sua humilde bebida de uva na calçada branca e limpa de um senhor, o das noventa décadas, devido a esse acontecimento, ele e o velho tecem uma longa conversa. Esta cena leva a uma representação rápida destes seres tão semelhantes, talvez pela simples bagagem que possuem. 

-Quem mora com o senhor? Pergunta o magro menino 

-Mais que pergunta, eu sou só. 

-Então o senhor não devia estar aqui. 

-E tampouco você, meu jovem. 

Mostre-me, onde estão seus materiais? 

– A vassoura? Está aqui, mas não sei em qual sonho eu perdi os meus cadernos. 

    Isto foi tão profundo que o senhor resolveu conversar mais e distrair o menino; a curiosidade da criança logo chega à casa da frente. -Por que todos os portões estão tortos e sem tinta? E esse lodo que ninguém cuida vai dominar a casa. 

– Essa casa guarda alguns mistérios. Os herdeiros nunca mais a abriram desde o ano de 1888. – Mas é algo perigoso? – Muito perigoso. Quase sussurrando o idoso conta ao menino 

– Há sombras lá dentro e elas nos dizem coisas… 

– Mas se elas falam, por que não as escutam? 

– Porque elas dizem coisas… 

     Naquele momento o pobre menino não estava mais entendendo nada, então com uma voz calma e um tom bem baixo o velho narra: – O ano era 1888, moravam seis pessoas nesta casa, um pai uma mãe e quatro filhos. Donos de uma pequena venda de fazendas, hoje tecidos, os moradores tiravam todo o seu sustento dali, até que um dia sombras começaram a trafegar pelas paredes da casa. O primeiro a ver foi um dos filhos, era uma sombra sem formato humano e movia-se com muita rapidez. De início, ninguém acreditou, mas elas tornaram-se mais frequentes e quando alguém se virava deparava-se com uma delas, e elas movendo-se pela parede buscavam encarar alguma face. O único que não acreditava era o pai, mas um dia quando os porteiros marcavam meio dia, ele viu uma sombra muito rápida perseguindo-o dentro de casa, mas sem dizer nada. 

    No dia seguinte, às 18:00 horas, uma das sombras diz algo ao pai das crianças. Parecia muito louco, mas a sombra dizia para ele jogar fora todos os imóveis da sala, pois eram amaldiçoados. Pouco a pouco, as sombras diziam mais e mais coisas; dentre uma semana não restava mais nada em casa, a não ser a solidão. Não restando mais imóveis, as sombras começaram a dizer coisas sobre as pessoas da casa; uma vez tentou influenciar a mãe dos meninos a matar um de seus filhos. Dessa forma, a família ficou pobre e amedrontada, não conseguiu mais morar na casa e até hoje, os indivíduos que passam em frente dela fazem de imediato o sinal da cruz, por medo dessas visagens os perseguirem. 

     Com os olhos quase saindo daquela estatura esquelética, o menino cheio de curiosidade olha para frente e diz que irá aproximar-se da casa. Quando ele deu alguns passos, um redemoinho muito forte moveu suas pernas finas quase derrubando-o. O menino limpou os olhos cheios de poeira, o sol já estava brilhando de esplendor e a torre anunciava o feito dos ponteiros: o ruído de meio dia. Daí o garoto fechou e abriu os olhos mirando para o céu limpo, apenas uma estrela decorava aquele belo paraíso. Movido pela curiosidade, o garoto resolve desafiar o que o idoso havia relatado, que sombras eram essas e coisas elas queriam dizer era o que o menino estava destemido a descobrir.

O moleque empurra a porta que não resiste muito, pois suas fechaduras já estavam velhas e enferrujadas. Enfim, ele entra na casa, de início tudo parecia normal, apenas um espaço velho e abandonado, nada demais, o garoto sorri e balbucia: – Forjadas estórias de um velho.

De repente, em fração de segundos, um barulho vindo da cozinha perturba os ouvidos do menino, parecia alguma vasilha sendo jogada, seria possível ter alguém ali dentro, pensou o garoto, mas era pouco provável.

O menino movido pela curiosidade dá alguns passos em direção à cozinha para verificar o que havia caído, ele não deu nem sequer três passos e a porta da frente é bravamente fechada. O garoto para por um tempo, arrepia-se, mas acredita ser apenas o vento e continua tentando adentrar a casa. Ao passo que as passadas do menino aumentavam dentro da casa coisas repentinas iam acontecendo. As janelas que estavam abertas são fechadas no mesmo ritmo que a porta da frente, quando não havia mais portas e janelas para se fecharem, um barulho semelhante ao passar de uma vassoura inicia-se no teto. O moleque se desespera e corre rumo a porta para abri-la, mas por mais que ele tentasse, a porta que nem tinha uma fechadura resistente, não abria.

Em questão de segundos o calmo ambiente torna-se turbulado, e eis que elas aparecem, as sombras. A parede branca da casa possibilitava uma imagem mais nítida dessas “criaturas”. Elas moviam-se rapidamente causando um barulho como o de um carro que passa por alguém em alta velocidade. Os olhos do menino arregalados de pavor não conseguem mirar outra coisa a não ser as possibilidades de fuga, mas nada mais abria, nem mesmo as janelas. Ele pensou em gritar e pedir socorro, mas antes que isso acontecesse, as sombras saem da parede e começam a girar em torno dele. Eis que não se ouviu mais nada, nem voz, nem face e muito menos um barulho de respiração.

  Além disso, o senhor das noventa décadas continuava com sua cadeira fatigada e seu ritmo lento, tocando um dos quadros da sala e voltando à paisagem à frente, esperando mais alguém que o notasse ali. Passando um tempo da saída do moleque de perto dele, o senhor observa tudo que acontece e sussurra baixinho: O problema das pessoas que tentaram habitar essa casa nunca foi entrar e sim dela sair, mas ninguém leva a sério as pobres histórias de um velho, mas no fundo há sempre um sábio que diz, que elas são reais. 

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